Parece que, depois de muitos conflitos internos, com direito a muitas idas e vindas e até declarações públicas do CEO Larry Ellison de que tudo não passava de buzzword, o ano de 2013 representou a consolidação da oferta Oracle Cloud Computing. Claro, para os fornecedores tradicionais de tecnologia, que tem posições de mercado consolidadas no antigo modelo de negócios, a computação em nuvem representa uma chacoalhada estratégica. É natural, portanto, que a Oracle tenha demorado um pouco para alinhar seus vários interesses internos e definir sua estratégia de Cloud Computing. A grande questão é saber o nível de acerto dessa estratégia, e o preço a ser pago por essa demora em se posicionar.

Para entender o que é o Oracle Cloud Computing é necessário percorrer primeiro a visão de computação em nuvempreconizada pela empresa, e cuja implementação ela vem perseguindo nos últimos quatro anos. Para a Oracle, os clientes adotarão a tecnologia de Cloud Computing através de nuvens híbridas. Os sistemas que manipulam os dados mais sensíveis das organizações rodarão em infraestruturas privadas e, em função da diminuição de custos proporcionada pela economia de escala, as soluções que não representam diferencial de negócios serão transferidas para nuvens públicas. Além disso, os clientes desejarão compatibilidade completa entre suas nuvens privadas e as nuvens públicas que eventualmente utilizarão. Ainda, a Oracle reconhece que o mercado demanda dos clientes cada vez mais rapidez na implementação de novas soluções. Assim, o Oracle Cloud Computing visa endereçar essa necessidade disponibilizando soluções prontas para uso quase imediato, reduzindo o tempo necessário de adoção. Ainda, em sua visão original a Oracle acreditava que os clientes não tinham interesse em comprar das nuvens públicas elementos de infraestrutura como processamento e capacidade de armazenamento, mas parece ter se rendido aos fatos: no último trimestre de 2013 a Oracle anunciou suas ofertas de soluções de infraestrutura como serviço.

Há que se considerar que essa visão da Oracle, e mesmo sua mudança de posição em relação a alguns aspectos de sua oferta, é certamente resultante de uma ampla pesquisa com seus principais clientes, incluindo a grande maioria das 500 maiores empresas do planeta. Vejamos então como o Oracle Cloud Computing está alinhado a essa visão.

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Nuvem Privada

Uma vez que a Oracle originalmente não acreditava que, em sua adoção de nuvem pública, os clientes quisessem comprar processamento ou armazenamento cru, sua oferta não contemplava a venda de infraestrutura como serviço. Já em 2010, pouco depois de comprar a Sun, que se tornou sua divisão de hardware, a Oracle descontinuou a solução Sun Cloud, que era justamente uma oferta de IaaS que competia diretamente com a Amazon Web Services e com o Microsoft Azure.

Na concepção da Oracle, o mais importante era oferecer um conjunto de equipamentos e software básico que permitissem ao cliente a construção de sua nuvem privada. Dessa forma a empresa investiu em soluções que já saem de fábrica pré-configuradas para rodar em cluster, e com soluções de software pré-instaladas para suportar escalabilidade horizontal e vertical. Por exemplo, o Exadata Database Machine, que já vem com o servidor de banco de dados Oracle instalado. De maneira análoga, o Exalogic Elastic Cloud já traz o middleware Oracle Fusion de fábrica. No caso desse último, o fato de usar o termo “Elastic” ao batizar essas soluções foi bastante criticado pelo mercado, uma vez que é impossível, em uma instalação com uma quantidade pré-determinada de recursos computacionais, oferecer elasticidade nos moldes que se espera de uma nuvem pública. O que a Oracle afirma, entretanto, é que as mesmas soluções que ela oferece para a construção de nuvens privadas são utilizadas em sua infraestrutura de nuvem pública (veja adiante), garantindo total compatibilidade entre os ambientes, o que em tese suportaria a possibilidade de integração harmônica e transparente entre os dois tipos de ambiente, privado e público. Também, é de se esperar que a Oracle venha a oferecer soluções de nuvem virtual privada em sua própria infraestrutura pública.

Segundo o vice-presidente de aplicações da Oracle, Steve Miranda, “todos os componentes de nossa nuvem são construídos para se integrar com os investimentos em software já realizados pelos nossos clientes, permitindo que se realize a migração para a nuvem quando lhes for mais conveniente”. Definitivamente, é o discurso típico dos líderes do mercado de IT pré-nuvem.

A Oracle oferece ainda, desde 2012, o serviço de gerenciamento de suas nuvens privadas, suportando integralmente os equipamentos e a infraestrutura colocados dentro das organizações. Esse serviço realmente representa uma nova área de atuação para a empresa, e amplia a área de contato com seus clientes.

Nuvem Pública

Uma vez que a visão da Oracle reconhece que boa parte de seus clientes também gostaria de utilizar uma nuvem pública para rodar suas aplicações, a empresa montou sua própria oferta para essa modalidade de serviços, construindo uma infraestrutura constituída de 17 data centers espalhados pelo mundo, usando um modelo de colocation com seu parceiro Equinix (no Brasil, Alog). E, como já falamos em post anterior, o 18º data center será no Brasil, conforme anunciado em dezembro último. A infraestrutura computacional é toda baseada em equipamentos da Sun, dentro da filosofia da empresa de oferecer total compatibilidade entre sua nuvem pública e as soluções de nuvem privada que propõe para seus clientes.

Embora originalmente a nuvem pública da Oracle tenha sido construída para suportar apenas ofertas de plataforma como serviço (PaaS) e software como serviço (SaaS), no último trimestre de 2013 a empresa anunciou que também passaria a oferecer infraestrutura como serviço (IaaS).

A solução de IaaS consiste na oferta de capacidade de processamento e de armazenamento, permitindo aos clientes a livre combinação de recursos, diferentemente das ofertas de SaaS e PaaS, que as pré-empacotam.

A oferta de capacidade de processamento, batizada de Oracle Compute Cloud Service, ainda está em fase experimental, e a empresa ainda não divulgou maiores detalhes. Pelo que se depreende da descrição apresentada no site, a solução permitirá rodar máquinas virtuais de maneira elástica, provavelmente nos mesmos moldes do que os outros provedores já oferecem. A solução de armazenamento, Oracle Storage Cloud Service, oferece o armazenamento de objetos na nuvem, nos moldes do serviço AWS S3.

Além disso, a nuvem pública da Oracle suporta suas ofertas de plataforma como serviço e software como serviço, apresentadas a seguir.

Oracle PaaS

As soluções de PaaS oferecidas pela oferta Oracle Cloud Computing estão baseadas nas mesmas plataformas de software consagradas que ela licencia de forma convencional no mercado empresarial:

  • Serviços de banco de dados baseados no Sistema Gerenciador de Bancos de Dados da Oracle. Basicamente, trata-se da hospedagem de bancos Oracle com algum valor agregado (gerenciamento, backup, redundância);
  • Serviços Java, para hospedagem de aplicações desenvolvidas sobre o Middleware Oracle Web Logic;
  • Serviços de mensageria, oferecendo integração e workflow através da nuvem;
  • Serviços analíticos, para hospedar bases multidimensionais desenvolvidas com a tecnologia Oracle;

A bem da verdade, tais ofertas deveriam ser qualificadas como serviços de hospedagem especializada, e não como soluções de Cloud Computing, pois não oferecem os benefícios fundamentais de computação em nuvem, como elasticidade dinâmica.

[Dica: sempre vale a pena relembrar o conceito de computação em nuvem]

A oferta de PaaS contempla ainda:

  • Um serviço para hospedagem de sites, baseado na solução da Oracle para construção de portais;
  • Uma solução para o desenvolvimento de soluções mobile;
  • Uma plataforma para o desenvolvimento colaborativo de software;
  • Uma solução para a elaboração e gerenciamento colaborativo de documentos.

Vale observar que, no que diz respeito às suas ofertas de PaaS, a oferta Oracle Cloud Computing incentiva o cliente a continuar desenvolvendo suas aplicações como sempre fez, dando-lhe a opção de hospedá-las em um data centerprofissional de classe mundial. Sua aposta, por enquanto, é na compatibilidade com suas plataformas computacionais comercializadas no modelo tradicional (on-premise). Para migrar as aplicações originalmente desenvolvidas sobre as plataformas tradicionais da Oracle (Fusion Middleware e banco de dados) não é necessário fazer qualquer alteração

Oracle SaaS

No que tange à sua oferta de Software as a Service, a Oracle também parece seguir o caminho trilhado por outros líderes tradicionais de aplicativos on-premise, oferecendo seus produtos consagrados através de um novo modelo de licenciamento e serviços agregados.

Em seu portfólio de soluções estão as mesmas aplicações onde a Oracle compete no mercado tradicional: ERP, CRM e aplicações para Recursos Humanos, todas resultantes de aquisições que a empresa realizou ao longo das duas últimas décadas. São soluções voltadas para organizações de grande porte, e a aposta da Oracle é que esses clientes desejam uma plataforma única, integrada, com todos os serviços sendo contratados de um único provedor de SaaS.

Para aprofundar um pouco mais essa análise, teríamos ainda que entrar no mérito da famigerada suíte Oracle Fusion Applications. Em tese, essa suíte, que começou a ser desenvolvida em 2005, visa substituir as soluções adquiridas de terceiros (Siebel, Peoplesoft, e JD Edwards) e pretende unificar a plataforma de aplicações da Oracle, sendo construída utilizando os modernos recursos de orquestração e computação distribuída suportados pelo middleware da Oracle. Entretanto, quando foi lançada, em 2010, sua funcionalidade não estava à altura das aplicações de CRM, ERP e gerenciamento de recursos humanos que ela pretendia substituir. E agora, em 2014, essa nova solução ainda não conta com uma base de usuários expressiva. De qualquer forma, seu modelo de licenciamento prevê o uso tanto em nuvens privadas quanto na nuvem pública da Oracle. Cabe observar que os velhos e bons produtos da Siebel, Peoplesoft e JD Edwards também podem ser licenciados para rodar em nuvem.

A única novidade, dentre as aplicações oferecidas pela Oracle no modelo SaaS, é o que a empresa chama de Oracle Social Cloud. Essa solução oferece duas funcionalidades distintas. De um lado, é uma rede social corporativa. De outro lado, propõe-se a ser uma ferramenta voltada para a área de marketing das organizações, posicionando-se como uma solução de elaboração e acompanhamento de campanhas para as redes sociais. Ainda, oferece o Oracle Social Data Services, que agrega informações das redes sociais e de outras fontes internas da companhia para enriquecer a análise de dados. O Oracle Social Cloud também é o resultado da integração das soluções de diversas empresas adquiridas pela Oracle nos últimos anos.

Competição

Ao abraçar o paradigma de nuvem de forma tão abrangente, a Oracle se posiciona como um potencial competidor de praticamente todos os outros provedores de serviços de Cloud Computing. Em declaração recente, Larry Ellison, CEO da Oracle, afirmou que a empresa pretende mesmo competir nos três níveis desse mercado, software, plataforma e infraestrutura como serviço. E acredita que a empresa possui grande vantagem no cenário de Plataforma como Serviço, em função de sua liderança no mercado de banco de dados e de ser a proprietária da linguagem Java.

Além disso, Larry Ellinson declarou que a empresa será competitiva em termos de preço com competidores que oferecem Infraestrutura como Serviço, como Amazon e Microsoft. A conferir. Afirmou também que nenhum outro provedor de serviços possui a diversidade de ofertas da Oracle em termos de Software como Serviço.

De maneira geral, a Oracle parece confiar na sua oferta de Cloud Computing, principalmente em seu canal de vendas e em sua rede de parceiros, apostando em sua capilaridade e presença no mercado corporativo, além de sua capacidade de influenciar as escolhas dos clientes. Em certo sentido, é uma tentativa de manter o esquema atual de “business-as-usual”, utilizando o mesmo modelo de comercialização do mercado de licenciamento de software e venda de hardware. Resta saber se este modelo se aplica ao setor de Cloud Computing, pois o modelo de negócios desse mercado não oferece as mesmas altas margens do mercado tradicional. Isso exigirá que os parceiros Oracle se adaptem a uma nova forma de atuação, aprendendo a extrair valor de serviços agregados para substituir os valores originalmente faturados através de comissões sobre as vendas. Thomas LaRocca, vice-presidente de canais da Oracle para a América do Norte, afirmou recentemente que os parceiros precisarão adquirir as competências necessárias para trabalhar com as soluções Oracle Cloud Computing, ou perderão o controle sobre as contas corporativas que atendem. Definitivamente, é mesmo uma grande ameaça para o canal de vendas.

Coopetição

Ao mesmo tempo em que se posiciona para enfrentar competidores mais bem estabelecidos no mercado de Cloud Computing, a Oracle sabe que precisa trabalhar com todos eles para garantir que, independentemente do provedor de serviços de nuvem que se escolha, seus clientes continuem a utilizar suas soluções de banco de dados e de servidores de aplicação.

Um exemplo desse esforço da Oracle em continuar com os clientes, não importa para onde eles migrem, é a colaboração com a Microsoft para certificar suas soluções rodando na nuvem Windows Azure. Entretanto, a Oracle estabelece algumas condições comerciais específicas para seus produtos rodando em provedores de nuvem concorrentes, o que provavelmente dará alguma vantagem competitiva a ela na disputa pelos clientes que possuem grandes investimentos em produtos Oracle.

Caráter semelhante de colaboração com competidores para não ameaçar sua posição de destaque no mercado de software parece ser a base para o anúncio recente de sua colaboração com a SalesForce.com, empresa pioneira e líder do mercado de CRM no modelo de Software as a Service, e com quem a Oracle mantém uma ruidosa rivalidade.

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Vale a Pena Apostar na Oracle?

Definitivamente, a Oracle está entrando no mercado de Cloud Computing com uma oferta ampla e que abarca todos os níveis em que é possível competir nesse segmento: software, plataforma e infraestrutura. Sendo a segunda maior empresa de software do mundo, e extremamente focada no mercado corporativo, a empresa certamente será um competidor de peso em qualquer mercado de tecnologia da informação para o qual se volte.

Entretanto, observadores do mercado apresentam críticas à sua aproximação para o segmento de Cloud Computing, destacando que a empresa está chegando tarde e tentando se posicionar apenas como mais um “AWS Killer”. Como uma entrante tardia, sua estratégia parece ser reativa e pouco ambiciosa, e falta à sua oferta a inovação e a criatividade que caracterizaram a empresa em iniciativas passadas. Além disso, sua trajetória titubeante, com várias idas e vindas, muitos alarmes falsos e grande demora em abraçar a computação em nuvem parecem indicar que tem sido difícil para a empresa alinhar os interesses de suas áreas, uma vez que a mudança de modelo de negócios exigida pelo novo mercado altera algumas de suas fontes de receita e lucratividade, além de chacoalhar suas estruturas internas de premiação. Tais fatores geram uma percepção de que pode ser arriscado direcionar investimentos de Cloud Computing para as ofertas da Oracle antes que a empresa comprove seu real compromisso de longo prazo com esse novo modelo de operação, garantindo inclusive a estabilidade das regras.

Por outro lado, é inegável que a Oracle é uma das empresas mais aparelhadas em tecnologias que sustentam o modelo de Cloud Computing, seja em termos de hardware, de sistemas operacionais, de plataformas de desenvolvimento e de aplicações. Se a empresa conseguir mostrar que, desta vez, finalmente veio para ficar e para jogar sério nesse mercado, todos se beneficiarão e o segmento de Cloud Computing ganhará mais um competidor de peso, ampliando o leque de soluções disponíveis.

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