Por onde começar usar IaaS: o que migrar, consequências e custos da migração, vantagens e desvantagens, fatores que incentivam e inibem a migração.

 

Este artigo refere-se ao Capítulo 9 do livro “Computação em Nuvem para Gestores de Negócios”

Os serviços de IaaS são os mais simples e mais flexíveis dos modelos de ofertas em Computação em Nuvem.

Se você trabalha numa empresa média ou grande, com certeza existe uma área de TI e há alguns (ou dezenas de) servidores rodando “in-house”. Esses servidores podem estar rodando aplicações voltadas ao público interno (e-mail, aplicativos de escritório, processamento de pedidos, faturamento, etc.) ou ao público externo (web site da empresa, e-commerce, compras de fornecedores). Podem estar rodando outros sistemas transacionais e informacionais, como ERP, CRM e até Business Intelligence.

 

Por onde começar usar IaaS

 

Os serviços em nuvem no modelo IaaS simplesmente permitem que você crie um data center virtual onde pode instalar e rodar os softwares e sistemas que bem entender, na quantidade de máquinas que quiser.

A diferença fundamental é que esses servidores estarão virtualizados, ou seja, seus recursos computacionais rodarão na nuvem e serão acessados pela Internet. E todos os serviços que rodarem nesses servidores serão entregues pela internet, quando interfacearem com usuários internos, fornecedores e clientes.

No modelo IaaS, a empresa gerencia tudo que vai além do hardware, do sistema operacional para cima. É como se a empresa estivesse operando seus próprios servidores, só que agora “remotamente”, através da Internet.

Obviamente, o provedor deve fornecer um painel de acesso (dashboard) para o controle e a configuração de máquinas que dê amplos poderes para a equipe de TI, que pode:

  • Acessar e configurar facilmente o hardware dos servidores (capacidades da CPU, memória dinâmica e memória estática). O grande ganho, aqui, é poder escalar mais recursos a qualquer tempo;
  • Monitorar o desempenho dos servidores, do fluxo de dados (I/O) e do desempenho dos softwares;
  • Automatizar ao máximo o escalonamento de recursos.

Alguns fornecedores, além do painel de controle e monitoração, fornecem também APIs[1] para que seus clientes montem seus próprios programas de monitoramento, parametrização e controle.

 

O que pode – ou deve – ser migrado para IaaS?

 

A computação em nuvem não necessariamente é uma solução para tudo o que a empresa roda. A migração envolve fatores estratégicos, técnicos e operacionais.

Pagar somente pelo que você usa é um motivo forte para usar a nuvem, mas não o suficiente em todos os casos. Ter recursos praticamente infinitos ou a possibilidade de aumentar a capacidade a qualquer instante, se houver requisições de alta demanda durante breves períodos, também não.

É preciso pensar em todos os aspectos ligados à sua infraestrutura de data center e seus times de TI, antes de iniciar a migração. A migração deve fazer sentido do ponto de vista técnico, mercadológico e organizacional.

Um jeito de tomar essa decisão é simplesmente listar todas as aplicações que rodam no “data center” interno e, para cada uma delas, analisar fatores como:

 

Consequências de Paradas

Se o sistema parar, a empresa perde faturamento? Ou pode perder clientes? A produção para? As entregas param? Os funcionários administrativos param de trabalhar? Ou se sentem desmotivados para trabalhar porque os sistemas de apoio vivem “caindo”?

 

Consequências de Estrangulamentos

Se a demanda do sistema for muito elevada e seu desempenho ficar cada vez mais lento, que riscos de negócio existirão? Em outras palavras: o sistema exige alta disponibilidade e alto desempenho? O sistema tem picos de demanda em função da sazonalidade de vendas ou de produção ou de entregas?

 

Consequências de Perdas

Se os dados de um sistema forem perdidos e puderem ser recuperados, quais as decorrências nesse intervalo de tempo? E se não puderem, haverá consequências legais, fiscais, mercadológicas, administrativas e financeiras? Trará problemas jurídicos para os dirigentes? Essas perdas (de tempo e ou dados) podem comprometer a existência da empresa ou fazer cair seu valor de mercado? Ou afetarão significativamente o relacionamento com os clientes?

 

Custos de Contingenciamento Físico

Para garantir que o sistema rode, há custos elevados para garantir eletricidade, ar-condicionado, sistemas contra incêndio, sistemas se segurança em função de possíveis furtos físicos? Além da infraestrutura de apoio, muitas vezes há que se duplicar os equipamentos e sistemas para garantir que, havendo queda em um, conjunto, o outro entre em operação – evitando paradas nos serviços que são oferecidos.

 

Custos de Manutenção dos Servidores

O servidor que roda a aplicação está envelhecido? Exige manutenções corretivas constantes? Exige uma política de manutenção preventiva? O custo de manutenção mensal ou anual, somado ao custo de depreciação, também mensal ou anual, está compatível com o valor que os serviços da aplicação agregam ao negócio? E se somarmos a esses custos o custo do pessoal de TI alocado somente para cuidar de problemas de hardware?

Se você montar uma tabela e atribuir 1 ponto a cada resposta para cada um desses fatores, terá um pré-plano de importância de migração para IaaS. Exemplo:

 

Por onde começar usar IaaS

 

Antes de iniciar qualquer migração de sistemas, é melhor passar um “pente fino”, fazendo algumas perguntas adicionais:

  1. O sistema a ser migrado está disponível no mercado como uma solução SaaS? Se estiver, você não precisaria alugar servidores, instalar sistema operacional e escrever código para muitas de suas necessidades. De e-mail a ERP tudo está comoditizado hoje em dia – e pode ser ainda mais barato usar SaaS que IaaS.
  2. O sistema a ser migrado poderia ser instalado num PaaS, onde você só gerenciaria as aplicações e os dados? Então seria o caso de usar um serviço PaaS público (como Google App Engine ou Azurre).

 

Vantagens Básicas e Benefícios do IaaS

 

Ao invés de investir montantes elevados na compra de hardware, a empresa contrata e paga IaaS baseada na sua demanda, de forma similar à compra de eletricidade ou água. Isto converte despesas de depreciação fixas em custos variáveis que acompanham o volume e o ritmo da produção de serviços de TI.

Dependendo do tipo de empresa, uma parcela significativa dos gastos com TI é consumida pelo “hardware”. Hardware próprio pode parar a qualquer momento. As soluções em nuvem removem os riscos destas falhas e os gastos que seriam feitos com sua manutenção corretiva ou preventiva.

A adoção dos serviços de nuvem elimina também os chamados custos invisíveis ou não utilitários: capacidades instaladas no data center próprio como “buffers” para picos de demanda, mas que ficam a maior parte do tempo em “stand-by”.

 

CAPEX versus OPEX

Do ponto de vista contábil, o uso de IaaS permite transformar despesas de capital investido em infraestrutura (CAPEX – de “capital expenditure”, que são despesas fixas associadas ao montante de investimentos) em custos e despesas variáveis (OPEX – de “operational expenditure”[2]).  Essa transformação é ainda mais intensa para PaaS e SaaS.

Do ponto de vista de negócio, investimentos fazem sentido quando a empresa pode se beneficiar futuramente. Vale a pena alocar capital se vai haver benefícios que aumentam a vantagem competitiva do negócio. Se, neste caso, a posse de “hardware e sistemas operacionais” não vai trazer nenhuma vantagem, é melhor transformar CAPEX em OPEX. Como OPEX são despesas e custos associados à demanda efetiva, sua empresa paga pelos benefícios que “teve” e não por possíveis benefícios futuros.

Por sua vez, o capital “liberado” pode ser usado em ativos mais estratégicos para o negócio.

 

Equipes de TI mais centradas no foco do negócio

O mesmo fenômeno ocorre com as equipes de TI ligadas a suporte e manutenção. Essas equipes em geral são compostas por técnicos bem preparados e, por isso, bem remunerados. Esses técnicos ficam liberados para desenvolveram atividades que de fato alavancam os negócios da empresa.

 

Menor índice de Paradas e Independência do local de instalação

Se a área onde sua empresa opera ficar sem energia, a menos que você tenha um esquema de contingência, seus servidores vão parar e o acesso dos seus clientes a eles também cessará – o que pode ser muito complicado. Os provedores de nuvem cuidam disso de duas formas:

  • Segurança do hardware: os serviços rodam em hosts dentro de data centers seguros, com várias medidas de segurança para contingência;
  • Redundância: os hosts das instalações em nuvem têm redundância. Se um servidor ou equipamento de rede cair, o data center permanece funcionando graças aos numerosos recursos de hardware que automaticamente restabelecem os níveis de atividade. Mesmo se um data center inteiro “cair”, o host pode ter centros secundários e até terciários para dar continuidade às funcionalidades online.

 

Diversidade de plataformas com maior visibilidade e gerenciamento

É possível instalar qualquer plataforma de software (ou diversas) e fazer um gerenciamento unificado (mesmo em ambientes híbridos), o que aumenta a visibilidade e a eficiência das operações.

 

Recursos gerenciados de forma mais eficiente

Não há qualquer limitação para aumentar (ou diminuir) os recursos computacionais utilizados, que podem ser contratados em função da demanda efetiva. Estes ajustes à demanda, inclusive, podem ser totalmente automatizados através de “scripts” com regras estabelecidas pela empresa. Esses scripts rodam no provedor e fazem automaticamente os ajustes nas capacidades de armazenamento e serviços de operação em rede. Com isso o gerenciamento de recursos fica mais eficiente, menos oneroso – e toma cada vez menos tempo das equipes de TI.

 

Velocidade

É possível construir muito rapidamente um “data center virtual” na nuvem tendo acesso essencialmente às mesmas tecnologias e recursos de um data center tradicional – sem ter que investir em planejamento de capacidade, bem como na manutenção e no gerenciamento de sua parte física.

 

Aceleração na implantação de novas funcionalidade e sistemas

IaaS é o modelo de Computação em Nuvem mais flexível. Permite a instalação automática de novos de servidores, além do aumento e diminuição do poder de processamento, do armazenamento e dos demais serviços de rede (por exemplo, firewalls). Isso reduz o tempo para disponibilizar novas funcionalidades e mesmo o tempo de instalação de novos sistemas.

Muitos provedores de IaaS hoje oferecem serviços adicionais como banco de dados, gerenciamento de mensagens e outros serviços que estão acima da camada de pura virtualização dos servidores. O pessoal técnico faz uma distinção e usa a sigla IaaS+ para estas opções adicionais de serviços.

 

Desvantagens

 

Equipes de TI mantém o mesmo nível de responsabilidade

Com o IaaS a empresa cliente tem controle total de infraestrutura – o que não acontece e não é necessário com os outros modelos de serviços, PaaS e SaaS. Neste sentido, a empresa cliente continua sendo responsável pelo gerenciamento das aplicações, dados, “runtime”, “middleware” e sistemas operacionais. Não haverá economias com equipe de TI, pois as pessoas que cuidam disso no data center interno passarão a fazer a mesma coisa no data center virtual.

Como toda camada de software continua sendo cuidada pela empresa, ela permanece responsável pela sua atualização sempre que surgirem novas versões, “service packs” e “patches”.

Também a responsabilidade pela segurança dos sistemas, integridade dos dados, etc., excetuando-se aspectos de segurança do hardware, continuam sob responsabilidade da área de TI da empresa. Os requisitos de segurança para sistemas rodando em IaaS são essencialmente os mesmos que existem para rodar no data center próprio.

 

Custos atrelados ao dólar

Com a recente flutuação cambial do real, os custos dos principais provedores podem ter elevação acima da taxa de inflação. A desvalorização da moeda ocorridas em 2015 e 2016 de certa forma anulou várias reduções reais de custos (em dólar), que são promovidas pelos provedores de tempos em tempos. Esta desvantagem, na verdade, aplica-se a todas as modalidades de serviços em nuvem.

 

Drivers para a Adoção de IaaS

 

A empresa Ashton, Metzler & Associates fez em 2012 uma pesquisa muito interessante: uma análise de marketing sobre a adoção de IaaS.[3]

Um dos objetivos da pesquisa era ajudar os provedores a decidirem como “embalar” seus serviços e, na ponta das empresas clientes, ajudá-las a se planejar nesse mercado crescente.

Quais os “drivers” que levam as empresas a adotar (ou não adotar) IaaS? O que incentiva – ou inibe – as empresas a adotar esse tipo de serviço?

Os resultados surpreenderam.

 

Fatores incentivadores

 

Por onde começar usar IaaS

 

Embora a redução de custos tenha sido considerada como o fator predominante para a adoção de Computação em Nuvem no modelo IaaS, a pesquisa revelou que a escalabilidade (capacidade de expandir ou contrair recursos disponíveis de forma automática) era um fator tão importante quanto.

O segundo fator foi agilidade: facilidade para implementar novos sistemas e novas funcionalidades nos sistemas existentes. A combinação de “disponibilizações” com agilidade – e não redução de custos – é de longe o maior incentivo para a adoção de soluções IaaS.

 

Fatores Inibidores

 

Por onde começar usar IaaS

 

Curioso é que o maior fator inibidor tem por trás a possível ação de “hackers”, que tem atuação cada vez mais sofisticada. Ocorre que este risco é essencialmente o mesmo (ou até maior) com as soluções rodando dentro da empresa.

Na prática, se olharmos um pouco mais de longe as respostas dadas, vemos que há mais questões e barreiras culturais do que efetivamente técnicas. Medo de mudar, medo do que não se conhece bem, aliado ao apego a uma espécie de “zona de conforto”: não vamos mexer em time que está dando certo ou não há porque mudar o que era feito se não está apresentando problemas. Custos e recursos humanos que já estão nos orçamentos e que se repetem a cada ano dificilmente são contestados. Mudanças sim, são alvo de questionamentos: quais os riscos? Porque mudar? Quais os ganhos? É preciso um esforço que nem todos dirigentes de TI querem enfrentar – ou nem tem tempo disponível para isso, em função das listas de pendências que sempre existem na área de TI.

 

Mercado IaaS

Um dos fatores que mais tem impulsionado o mercado de IaaS é a sua adoção por parte de pequenas e médias empresas. O número de pequenas e médias empresas, especialmente nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, vem aumentando numa taxa superior à de grandes empresas, o que intuitivamente não é lá muito fácil de compreender. Analistas da Sandler Research[4] estimam um crescimento médio de 43% ao ano no período de 2015 a 2019.

 

Referências

[1] API – abreviação de “Application Programming Interface”. Podem ser descritos como componentes de software que permitem interligar um sistema a outros sistemas, enviando e recebendo dados de forma estruturada. Ver mais em Quora “What is API”.

[2] Comparação de Capex vs. Opex – http://www.diffen.com/difference/Capex_vs_Opex

[3] The Adoption of IaaS – A Market Analysis – http://www.embrane.com/sites/default/files/files/Keys_to_Enterprise_IaaS_Adoption_Embrane_AMA.pdf

[4] Sandler Research – Global IaaS Market 2015-2019 – http://www.sandlerresearch.org/global-infrastructure-as-a-service-iaas-market-2015-2019.html

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Mercado de Computação em Nuvem
Por onde começar usar PaaS

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