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Open Investment: como deve funcionar e quais são os benefícios para o mercado de capitais

O Open Investment é uma iniciativa que prevê a possibilidade de que os clientes autorizarem o compartilhamento de seus dados, para que seja possível oferecer melhores produtos e serviços, criar ofertas personalizadas e potencializar a inovação. No momento, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), enviou uma proposta de escopo inicial para o Banco Central (BC).

O Open Investment, assim como o Open Banking e o Open Insurance, fazem parte do Open Finance, que reúne em um mesmo ecossistema “diversas iniciativas de digitalização de serviços financeiros e um amplo escopo de dados, como os relacionados a investimentos, seguros e previdência”, explicou Campos Neto, presidente do Banco Central em entrevista recente ao portal Infomoney.

A participação da área de investimentos já estava prevista para acontecer na quarta fase de implementação do Open Banking e, como tudo indica, deve ter implementação muito similar ao Open Insurance.

Isso porque, a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) está trabalhando para definir as regras e diretrizes do Open Insurance, assim como o Banco Central fez com o Open Banking. Entretanto, como eles fazem parte do mesmo ecossistema – o Open Finance – há sim demonstração, por parte dos dois órgãos, de que há um trabalho em conjunto sendo feito de maneira harmônica.

Nesse post, vamos falar sobre os detalhes da proposta para Open Investment divulgada pela ANBIMA, assim como os benefícios e possíveis impactos no setor de investimentos. Confira:

Como o Open Investment deve funcionar?

Desde 2018, a ANBIMA vem promovendo discussões sobre Open Banking, coordenadas pelo seu Grupo Consultivo de Inovação. Isso porque, produtos de investimento do mercado financeiro e de capitais já haviam sido incluídos na 4ª fase de implementação do Open Banking.

Assim, em 2021 esse tema foi priorizado pelas lideranças da Associação. Dessa forma, foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar para elaboração da proposta de escopo inicial para Open Investment, que já foi enviada ao Banco Central.

Recentemente, o Banco Central aprovou a proposta da ANBIMA em relação aos produtos que serão incluídos no Open Investment. São eles:

  • CDBs (Certificados de Depósitos Bancários);
  • RDBs (Recibos de Depósito Bancário);
  • LCIs (Letras de Crédito Imobiliário);
  • LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio);
  • Cotas de fundos de investimento;
  • Cotas de fundos de índices listados em bolsas de valores;
  • Títulos públicos do Tesouro Direto;
  • CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários);
  • CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio).

A ideia é que a implementação do Open Investment, assim como a do Open Insurance, seja dividida em três fases:

Fase 1 – Prevista para dezembro de 2021

Nesse momento as instituições disponibilizam seus dados, como identificação dos produtos, taxas e validade de cada um.

Fase 2 – Prevista para junho de 2022

Nessa fase os clientes poderão autorizar o compartilhamento de seus dados, informando o produto e o volume aplicado.

Fase 3 – Prevista para dezembro de 2022

Nesse momento, poderá ser compartilhado também os dados de transações dos clientes.

A implementação é dividida em fases para auxiliar as casas a terem tempo hábil para desenvolverem de forma segura e eficaz todos os sistemas necessários. As instituições classificadas como S1 e S2 pelo Banco Central devem participar obrigatoriamente do Open Investment.

De acordo com a ANBIMA, eles optaram por priorizar os dados que vão fomentar a competitividade, transparência e desenvolvimento da indústria de investimentos, focando em produtos e serviços que são relevantes para os clientes do varejo.

A ANBIMA ainda destaca o pioneirismo brasileiro no Open Investment, afinal outros países até iniciaram esse tipo de projeto, mas com poucos produtos disponíveis ou então como uma iniciativa do próprio mercado, com pouca atuação de um órgão regulador, que, por sua vez, é um ator muito importante no processo de organizar as fases de implementação e proteger os consumidores – garantindo que os dados sejam utilizados de forma ética e segura. Um exemplo disso é o que acontece em Singapura

Open Investment em Singapura

Apesar de a experiência de implementação do Reino Unido ter sido utilizada como referência para o desenvolvimento do Open Banking Brasil, no setor de investimentos, Singapura está um pouco mais avançada no compartilhamento de dados. Lá já são contemplados cotas de fundos, ações e depósitos remunerados.

Entretanto, é importante mencionar que o Open Banking em Singapura não possui adesão obrigatória e é uma iniciativa liderada pelo mercado, apoiada e orientada pelo regulador e suportada por meio da infraestrutura digital – Singapore Financial Data Exchange (SGFinDex), fruto de uma parceria público-privada.

API Open Investment

O Open Investment deve funcionar por meio de APIs (do inglês, Application Programming Interface), que atuam como “pontes” e permitem a comunicação e a troca de informações entre plataformas.

Nesse sentido, não existe uma única plataforma que poderá ser utilizada por todas as instituições participantes, mas sim APIs abertas – e desenvolvidas pelas próprias instituições ou por empresas parceiras – que vão permitir a troca de informações e que outras instituições possam desenvolver aplicações conectadas aos sistemas financeiros.

O compartilhamento de informações deve acontecer somente mediante consentimento, autenticação e confirmação dos investidores.

Além disso, a tecnologia da API permite a criação de novos aplicativos e serviços, como por exemplo uma aplicação que te permita avaliar todos os seus investimentos em um único lugar. As oportunidades de inovação são inúmeras!

Portanto, uma API precisa ser:

  • Segura;
  • Padronizada;
  • Escalável;
  • Simples;
  • Moderna;
  • Sustentável.

Também é importante ter em mente que o Open Finance como um todo e, por consequência, o Open Investment, partem do princípio da reciprocidade. Ou seja, só é possível ter acesso aos dados se você também os fornecer. Justamente por isso, as APIs são construídas para serem abertas e devem ter os requisitos acima, para que desenvolvedores consigam ter acesso às informações necessárias, fazendo as ligações de forma correta, para aproveitar os benefícios que o Open Investment tem a oferecer às instituições de investimento.

>> Leitura recomendada: API open banking: descubra o que é, como aplicar, dicas de segurança e padronização

Open Finance: ecossistema integrado

Como já comentamos no início deste post o Open Investment faz parte do Open Finance, assim como o Open Insurance e o Open Banking:

Open Banking

O Open Banking é uma iniciativa que permite que os titulares/clientes possam autorizar o compartilhamento de seus dados financeiros com as instituições participantes do Open Banking reguladas pelo Banco Central, para obter melhores serviços e produtos, como ofertas de crédito personalizadas, ou ainda permitir a criação de aplicativos agregadores de finanças pessoais, por exemplo.

Open Insurance

O Open Insurance é uma iniciativa que tem como objetivo tornar o mercado de seguros mais competitivo, fazendo com que os produtos oferecidos pelo setor sejam mais populares e acessíveis, melhorando também a jornada de compra do cliente. Ele faz parte de uma estratégia de inovação aberta, que reúne empresas do segmento e outras que estejam interessadas em criar novos produtos e serviços.

O funcionamento do Open Insurance é bem similar ao do Open Banking. A ideia é permitir que os clientes possam autorizar, de forma segura, o compartilhamento de seus dados, para, a partir daí, obter melhores serviços e fomentar a criação de novos modelos de negócio.

Essas três iniciativas integram a Agenda BC#, que foi estruturada em 5 dimensões:

  1. Inclusão;
  2. Competitividade;
  3. Transparência;
  4. Educação;
  5. Sustentabilidade

O objetivo principal do Open Finance é aumentar a concorrência e, como consequência, a eficiência do sistema financeiro, ampliando o conjunto de produtos e serviços oferecidos, para democratizar, digitalizar, desburocratizar e desmonetizar.

>> Leitura recomendada: Open Banking Week 2021: confira os destaques e principais painéis do evento!

Benefícios do Open Investment

Ainda que a implementação do Open Investment não tenha iniciado, já há uma alta expectativa para os benefícios que ele pode trazer para o mercado e para os clientes. Abaixo, você confere os principais destaques:

  • Autonomia dos clientes em relação à vida financeira: afinal, está nas mãos deles a opção de compartilhar seus dados, além de aproveitar os aplicativos agregadores que vão surgir para centralizar as contas, fazer pagamentos, gerenciar investimentos, mesmo que os produtos sejam de bancos diferentes. Isso deve facilitar o monitoramento da rentabilidade, cotações, preços e eventos de todas as aplicações.
  • Inovação: o aumento da concorrência acaba causando no mercado um movimento de inovação, justamente porque é necessário fazer adaptações e encontrar novas maneiras de atender as necessidades dos investidores.
  • Aprimoramento das ofertas de produtos e serviços: o aumento da quantidade de acesso a dados no Open Investment vai tornar possível que as instituições compreendam cada vez melhor o perfil dos investidores, diversificando produtos, com mais assertividade.
  • Melhoria da gestão de risco dos portfólios pessoais: no Open Investment o investidor não “pertence” mais a nenhuma instituição, o que dá mais liberdade para que ele possa avaliar as taxas e custos, realizando comparativos de forma mais simples, ágil e digital.
  • Melhoria na identificação do perfil de suitability: suitability, significa verificação a adequação do produto ao cliente, que nada mais é do que um formulário aplicado pelas corretoras para definir o perfil do investidor. No Open Investment, essa avaliação deve ocorrer por meio do compartilhamento de dados, tornando esse processo mais ágil e assertivo.

>> Leitura recomendada: Encaminhamento de proposta de crédito no Open Banking com correspondente digital

Impactos no setor de investimentos

A tendência é que a proposta de Open Investment seja capaz de diminuir algumas barreiras em relação ao setor de investimentos, aumentando a democratização. Para se ter uma ideia, de acordo com o Raio X do investidor brasileiro de 2020, 53% dos investidores são homens, 54% moram na região sudeste, 85% trabalham e têm atividade remunerada, a renda familiar média corresponde a 5.600 reais e 57% deles pertencem a classe C.

A maioria dos investidores (84,2%) ainda opta por investir na poupança, seguido por fundos de investimento (6%), títulos privados (5%), planos de previdência (5%), títulos públicos (4%), moedas digitais (3%).

As 3 principais vantagens de investir apontadas investidores são:

  • 43% – segurança financeira e possibilidade de juntar uma reserva financeira;
  • 22% – o retorno financeiro que posso ter com a aplicação financeira;
  • 7% – poder retirar o dinheiro sem prejuízo em caso de necessidade.

Ou seja, há várias possibilidades para ampliar esse perfil de investidor, assim como diversificar os principais produtos utilizados com o Open Investment, tornando esse processo mais transparente, aumentando a competitividade e a oferta de soluções customizadas.

Além disso, o incentivo ao desenvolvimento e aprimoramento de aplicativos agregadores de função devem eliminar alguns problemas relacionados à segurança de dados, evitando então que os clientes tenham que, por exemplo, inserir suas senhas para utilizar esses aplicativos e obter informações relevantes. No Open Investment, provavelmente, isso poderá ser feito por meio do compartilhamento de dados, protegido pela LGPD e pelas diretrizes de gestão de consentimento.