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Open Finance: ecossistema de inovação no mercado financeiro

O Open Finance reúne em um mesmo ecossistema “diversas iniciativas de digitalização de serviços financeiros e um amplo escopo de dados, como os relacionados a investimentos, seguros e previdência”, explicou Campos Neto, presidente do Banco Central (BC) em entrevista recente ao portal Infomoney. Assim, o objetivo principal do Open Finance é aumentar a concorrência e, como consequência, a eficiência do sistema financeiro, ampliando o conjunto de produtos e serviços oferecidos.

De certa forma, o Open Finance pode ser considerado uma evolução do Open Banking, afinal, em sua quarta fase de implementação já havia previsão de inclusão da área de seguros (Open Insurance) e da área de investimentos (Open Investment). Todas essas iniciativas fazem parte da agenda competitiva do Banco Central, chamada de agenda BC#.

De acordo com o relatório Digital 2021 – Global Overview Report, realizado pela We Are Social em parceria com o HootSuite, uma das tendências para esse ano é justamente a ruptura digital, com destaque para as áreas da saúde, educação e, claro, finanças.

No Brasil, estamos caminhando para a implementação da terceira fase do Open Banking e o Open Insurance está previsto para começar no final de 2021. Entretanto, como o próprio presidente do BC apontou na entrevista que mencionamos acima, essas iniciativas são muito similares ao desenvolvimento da internet. Ou seja, a tendência é de que mesmo após a finalização de todas as fases de implementação, o Open Finance continue evoluindo ao longo do tempo, oferecendo novos produtos, serviços e experiências para os clientes.

Pensando nisso, nesse post vamos falar sobre os impactos do Open Finance no mercado, o potencial de inovação, desafios tecnológicos e expectativas para o futuro. Confira:

Como funciona o Open Finance?

O Open Finance é um conceito que parte da ideia de que os clientes/consumidores são donos de seus dados financeiros e, portanto, podem tomar a decisão de autorizar o compartilhamento deles com outras instituições, com o objetivo de em troca receberem melhores produtos e serviços, como ofertas de crédito, por exemplo.

Nesse sentido, o compartilhamento de dados gera benefícios tanto para as empresas, que poderão gerar insights mais precisos sobre o comportamento de seus consumidores, quanto para os clientes, que receberão melhor atendimento e terão mais opções de escolha.

Esse ecossistema funciona por meio de APIs (Application Programming Interface), que atuam como “pontes” e permitem a comunicação e a troca de informações entre plataformas).

As instituições participantes do Open Finance, sejam elas bancos, fintechs ou bigtechs, devem seguir o princípio da reciprocidade, dessa forma, só é possível ter acesso aos dados se você também os fornecer. Justamente por isso, as APIs são construídas para serem abertas, facilitando o trabalho dos desenvolvedores, que precisam ter acesso às informações necessárias, fazendo as ligações de forma correta e aproveitando o que o open banking tem a oferecer às empresas.

Em termos de competitividade, esse princípio possibilita que instituições menores tenham acesso a dados que podem ser utilizados para criar novos modelos de negócio e ofertas personalizadas, com informações que anteriormente não seria possível obter.

Justamente por isso o Open Finance não é um produto, já que não existe uma única plataforma que poderá ser utilizada por todas as instituições participantes, mas sim APIs abertas e padronizadas – e desenvolvidas pelas próprias instituições ou por empresas parceiras – que vão permitir a troca de informações e que outras empresas possam desenvolver aplicações conectadas aos sistemas financeiros.

Atualmente, há três principais iniciativas que fazem parte do Open Finance, são elas:

Open Banking

O Open Banking é uma iniciativa que permite que os titulares/clientes possam autorizar o compartilhamento de seus dados financeiros com as instituições participantes do Open Banking reguladas pelo Banco Central.

Open Insurance

O Open Insurance é uma iniciativa que tem como objetivo tornar o mercado de seguros mais competitivo, fazendo com que os produtos oferecidos pelo setor sejam mais populares e acessíveis, melhorando também a jornada de compra do cliente. Ele faz parte de uma estratégia de inovação aberta, que reúne empresas do segmento e outras que estejam interessadas em criar novos produtos e serviços.

O funcionamento do Open Insurance é bem similar ao do Open Banking. A ideia é permitir que os clientes possam autorizar, de forma segura, o compartilhamento de seus dados, para, a partir daí, obter melhores serviços e fomentar a criação de novos modelos de negócio.

Open Investment

Assim como o Open Banking e o Open Insurance, o Open Investment parte da mesma premissa do compartilhamento de dados, mediante autorização dos clientes, para que seja possível criar ofertas personalizadas, oferecer melhores produtos e serviços e potencializar a inovação.

A participação da área de investimentos já estava prevista na quarta fase do Open Banking e deve ter implementação parecida com o Open Insurance, porque a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), já enviou a proposta de escopo inicial para o Banco Central.

>> Leitura recomendada: API open banking: descubra o que é, como aplicar, dicas de segurança e padronização

Implementação do Open Finance

O Open Finance é composto por diversas esferas, que podem, inclusive, se expandir para outros setores ao longo do tempo como temos visto na Austrália, por exemplo. Afinal, o Open Finance não é uma iniciativa isolada do Brasil, mas sim um movimento que tem acontecido de forma global.

Entretanto, existem modalidades diferentes de implementação entre os países. Nos Estados Unidos por exemplo, para a adoção do Open Banking eles optaram pela regulação de mercado, na qual as próprias empresas tomam as decisões de padronização e diretrizes de uso. No Brasil, assim como no UK, há um órgão regulador – o Banco Central – que fica responsável por definir as diretrizes, porém ele não atua sozinho.

“O processo de implementação e definição dos requisitos técnicos e tecnológicos do Open Finance conta com a participação e representação de todos os segmentos envolvidos, tanto nos Grupos Técnicos, onde as discussões sobre as especificações técnicas acontecem, quanto no Conselho Deliberativo, onde são tomadas as decisões de nível estratégico”, explica Campos Neto, presidente do Banco Central em entrevista ao portal Infomoney.

Todas as associações que fazem parte do conselho possuem paridade de voto, independente do porte das instituições. Essa é uma forma de evitar que as decisões fiquem concentradas em empresas maiores, tornando a concorrência desleal.

>> Leitura recomendada: Encaminhamento de proposta de crédito no Open Banking com correspondente digital

Benefícios do Open Finance 

O Open Finance faz parte da agenda de inovação do Banco Central e não é por acaso. As possibilidades de mudança proporcionadas por esse ecossistema são praticamente infinitas, até mesmo porque a tecnologia tem um papel muito importante nesse processo e muito ainda pode ser criado no futuro.

Entretanto, isso não significa que não existam benefícios a curto e médio prazo. Abaixo você confere uma lista com as melhorias para empresas e clientes que estão por vir:

Melhoria na jornada do consumidor: contratação de produtos e serviços mais ágil e segura, ampliação de ofertas disponíveis no mercado, UX design de plataformas mais acessíveis;

– Inclusão financeira: aumento da transparência em relação ao uso de informações, queda de barreiras que prejudicavam a entrada no sistema financeiro;

– Ofertas personalizadas: serviços customizados, construídos levando em consideração as necessidades, objetivos e interesses do público. Análise de risco e crédito feita levando em consideração todo histórico e perfil do cliente para concessão de valores e taxas de juros mais adequadas.

– Inovação: surgimento de novos modelos de negócio, aplicativos de gestão pessoal de finanças, soluções de educação financeira ou de comparação entre diferentes ofertas de produtos e serviços disponíveis no mercado.

– Eficiência: por conta do aumento da concorrência a tendência é que isso resulte no aumento da eficiência, porque haverá novos players ingressando no mercado o que, pela lógica deve contribuir para a redução dos custos, diminuição das assimetrias e aumento das oportunidades.

O que indica o sucesso do Open Finance?   

“O sucesso do Open Finance poderá ser medido pela sua capacidade de estimular a competição, a inovação e a eficiência do sistema financeiro e de pagamentos, bem como pela promoção da cidadania financeira”, comenta Campos Neto, presidente do Banco Central em entrevista ao portal Infomoney.

Portanto, ao que tudo indica, a adoção do Open Finance deve seguir uma curva muito diferente do PIX, por exemplo. De acordo com o Banco Central, em junho de 2021, há 274.374.807 pessoas físicas e jurídicas que ativaram suas chaves de PIX. Além disso, mais de 50% da população opera as chaves de PIX todos os dias, fazendo com que desde seu lançamento até junho deste ano fossem movimentados mais de 1 trilhão de reais.

Como o próprio presidente do Banco Central explicou o Open Finance é uma iniciativa de longo prazo que requer um tempo de amadurecimento e que deve estar em constante inovação, acompanhando as fases de implementação e o aumento da adesão por parte da população.

Entretanto, uma pesquisa realizada EY identificou um dado interessante: 53% dos entrevistados se sentiriam confortáveis com a ideia de seus bancos compartilharem seus dados financeiros com terceiros – desde que existam garantias de segurança estabelecidas, além disso 39% entendem que o Open Banking pode ajudar a diminuir taxas e tarifas bancárias.

Porque ingressar no Open Finance? 

No Brasil, o Banco Central definiu como obrigatória a participação no Open Banking das instituições financeiras categorizadas nos segmentos 1 (S1) e 2 (S2). Posteriormente, há a possibilidade de estender essa obrigatoriedade às demais instituições. As demais instituições (S3 a S5) são obrigadas a participar apenas na Fase 3, quando forem detentoras de contas ou iniciadoras de transação de pagamento.

Entretanto, a ideia é encarar esse momento não apenas como um marco regulatório para ser cumprido ou como algo restrito apenas para os grandes bancos obrigatórios. Isso porque, de acordo com uma pesquisa realizada pela Accenture, bancos na Europa que não adotaram o Open Banking, acabaram abrindo espaço para que outras empresas e fintechs se fortalecessem no mercado.

Como o Open Banking faz parte do Open Finance é provável que acontece a mesma coisa com e empresas de seguro e de investimentos que não acompanharem as evoluções proporcionadas pelo Open Insurance e Open Investment.

Para se ter uma ideia, a Accenture havia estimado em 2020 que 7% do total dos lucros dos bancos na Europa estaria associado às atividades possibilitadas pelo Open Banking, com 99% dos bancos planejamento aumentar os investimento dessas iniciativas nos próximos anos.

Lembrando que, de acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria Americas Market Intelligence em parceria com a Mastercard, mostrou que por conta da pandemia o número de brasileiros desbancarizados caiu 73%, muito por conta do auxílio emergencial. Isso acaba abrindo uma oportunidade para as instituições que fazem parte do Open Finance ofertarem produtos e serviços para esse público.

Efeito Kodak 

Atualmente tirar fotos é muito simples, basta ter em mãos um celular com câmera digital. Porém, nem sempre foi assim! A Kodak era uma das maiores empresas de fotografia do mundo, para se ter uma ideia só nos Estados Unidos, em 1976, a Kodak vendia 85% das câmeras e 90% dos filmes. Em todo o mundo, as porcentagens eram superiores a 50%.

Entretanto, em 2012 a Kodak entrou com um pedido de falência. Como uma empresa passa de uma das maiores do mundo para a falência em apenas 30 anos? A resposta hoje é bem simples: a falta de inovação e visão de futuro acabou de vez com o sucesso da Kodak.

Isso porque, em 1975 um engenheiro chegou a criar o que seria a primeira câmera digital. Contudo, investir nessa inovação foi considerado pela Kodak como uma ameaça a maior fonte de renda da empresa: os filmes fotográficos.

Isso fez com que a partir dos anos 90 a Kodak entrasse em declínio progressivo, perdendo mercado para as máquinas e fotos digitais, assim como outras inovações de mercado, resultado na falência.

Muitos podem atribuir a falência da Kodak ao acréscimo do digital no mundo da fotografia, mas a realidade é que houve também falta de visão e pesquisa de mercado. Até mesmo porque as máquinas digitais ajudaram a popularizar a fotografia, tornando-a mais acessível.

Mas como o Open Finance se relaciona com essa história?

É interessante colocarmos esse exemplo em perspectiva da inovação vs. extinção, ainda mais em tempos de transformação digital. Como vimos, o declínio da Kodak levou muitos anos, ou seja, havia uma janela de tempo considerável para atuar e, de repente, evitar a falência. Atualmente, o tempo está cada vez mais acelerado e não acompanhar as inovações do mercado pode ser fatal.

Tecnologia e inovação

A inovação pode ser entendida como um dos pontos chave do Open Finance, justamente porque há um grande incentivo para que isso aconteça, além do fato de a criação desse ecossistema estar sendo gerenciada por órgãos que estão tomando todas as medidas para criar padrões efetivos e tornar o ambiente propício e seguro para todos.

Uma pesquisa publicada pelo The Fintech Times mostrou que 85% das instituições financeiras entrevistadas concordaram que tecnologia e integração deveriam estar à frente dos serviços do mercado financeiro.

O fato de as empresas participantes do Open Finance terem mais acesso a dados e informações dos clientes (mediante autorização e respeitando as diretrizes da Lei geral de Proteção de Dados – LGDP) vai permitir que a tomada de decisões seja mais assertiva.

Outro ponto que é importante ressaltar, além do que já destacamos sobre a importância da perspectiva de futuro, é justamente a possibilidade de atuação em nicho. Durante o Open Banking Week 2021, muitos especialistas apontaram a possibilidade de atuação em meios específicos como uma boa aposta para o Open Finance.

Isso significa que essa ampliação da visão não significa, necessariamente, que as instituições precisam atuar em todas as áreas, mas sim que é possível realizar escolhas estratégicas, com base em dados, para estabelecer no mercado um carro chefe que é atrativo e oferece o melhor atendimento e experiência para o cliente.

O que podemos chamar de “economia de contexto” também pode ser uma boa ideia para o futuro. Nesse cenário em que já há um ecossistema interligado, será possível desenvolver uma série de aplicações capazes de indicar para o cliente o melhor posto para abastecer ou o caminho no qual há menos chances de acidente, por exemplo, levando em conta as informações contextuais do cliente.

Para o varejo, além da possibilidade de realizar ofertas de crédito personalizadas, haverá também menos fricção na hora de realizar pagamentos. O CIBA (ou Client Initiated Backchannel Authentication) é um protocolo que tornará possível que os clientes autorizem instituições de transação de pagamentos (ITP) a realizarem uma transação. Porém, não estamos falando de qualquer tipo de transação! Nesse modelo não é necessário estar em um navegador ou no aplicativo para autorizar a transferência, ou seja, não há redirecionamento.

Isso significa que em um futuro muito próximo, será possível autorizar pagamentos por meio de smart speakers, como a Alexa, em um fluxo CIBA. Isso acaba desacoplando as pontas do redirecionamento, partindo do pressuposto de que o cliente já possui um canal de comunicação assíncrono com a detentora de contas e que pode, de forma segura, aprovar o pagamento dessa forma, o que entrega para o cliente uma experiência melhor, com menos atritos.

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